Mineração no Brasil:
        Augusto Antunes, o homem que realizava

Sumário do livro
Prefácio do livro
O primeiro livro da série "Mineração no Brasil:  História e seus grandes vultos" resume a vida, riquíssima sob vários aspectos, de Augusto Trajano de Azevedo Antunes.
Mais que um resgate da memória do "Doutor Antunes", é uma justa homenagem ao pioneiro da moderna indústria da mineração brasileira. Há mais de meio século, ele teve a audácia de empreender, com inabalável pertinácia, um grande projeto na ainda hoje inóspita Amazônia, provando ao País e à comunidade internacional ser possível, com todo o sucesso, minerar naquela que é a última vasta região da Terra com grande potencial mineral.

Este livro é fruto de um trabalho de compilação de centenas de documentos e depoimentos, obtidos por muitos colaboradores que conheceram o Dr. Antunes, trabalharam nas suas empresas e nutriam por ele sincera admiração. Não conseguimos abandonar o costume de chamá-lo cerimoniosamente de Doutor, porque era também assim que nos tratava. O fato de ser ele muito discreto tornou-o menos conhecido do que merecia. Nosso propósito é não só homenageá-lo no seu centenário, mas também documentar e divulgar seus valores, princípios, qualidades e realizações para que sirvam de modelo à juventude brasileira das gerações vindouras.

Algumas imagens selecionadas do livro:
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Alguns trechos selecionados do livro:
 

Durante o Império, as lavras ainda em produção eram mera caricatura do que tinham sido algumas décadas atrás. Mas, em 1817, ocorre um fato alentador: a Coroa autoriza a formação de companhias por ações para atuar na mineração de ouro. Com isto, logo depois da Independência chegavam os ingleses: Imperial Brazilian Mining Company (1826), General Mining Association (1828), Brazilian Company (1832) e a Saint John del Rey, que, em 1834, passou a explorar a mina de Morro Velho, no município de Nova Lima, MG.

A Saint John chegou a ser responsável, em 1879, por 83% de todo o ouro extraído em Minas Gerais. A mina de Morro Velho, funcionando até hoje, e a mais antiga em operação no Brasil. Com mais de 8.000 empregados, também é a maior em operação subterrânea. São 2.453 metros de profundidade.

 

Em 1876, numa iniciativa do imperador D. Pedro II, era inaugurada a Escola de Minas de Ouro Preto. Ensino gratuito e corpo docente de alto nível, incluindo a participação de prestigiados mineralogistas e cientistas franceses. Concluído o curso, os três melhores alunos ganhavam bolsas para complementar os estudos na América do Norte e na Europa. Tudo por conta do Estado. O Brasil ingressa no período republicano ressentindo-se de estudos científicos para a descoberta de novas jazidas minerais.

Não se dispunha, igualmente, de tecnologia para produção e enriquecimento do minério com vistas a seu aproveitamento industrial. Nos próximos capítulos desta história, o século XX serve de cenário. A nacionalização do minério e a Segunda Guerra Mundial levam ao palco os gigantes da mineração e da siderurgia – Vale do Rio Doce, Companhia Siderúrgica Nacional, Petrobrás. É quando entra em cena um dos atores principais, personagem inesquecível: Augusto Trajano de Azevedo Antunes.

 

Tornou-se minerador a custa de intenso aprendizado. Conheceu e praticou a mineração desde a sua forma mais rudimentar até ser capaz de construir as mais modernas e sofisticadas instalações industriais de minas, terminais de embarque de minério e estradas de ferro. Percorria incansavelmente todas as minas do quadrilátero ferrífero.

Trocava experiência e conhecimento, permanentemente, com os poucos engenheiros de minas e geólogos da região. E aprofundava o diálogo com os antigos mineradores. Doutor Antunes gostava de repetir Guimarães Rosa: "Sábio não é quem sabe muito, é quem aprende rápido."

Foram 52 anos de dedicação total ao trabalho, defendendo com firmeza e intransigência a livre iniciativa e o liberalismo socialmente responsável.

 

Em entrevista ao "Nouvel Economist", publicada em 19 de julho de 1985, sob o título "Bresil – L'Irresistible ascension de M. Azevedo Antunes", ele se recorda daquela viagem:

Depois de uma jornada a pé no cerrado, subimos o rio contra a corrente, a bordo de um desses troncos de árvore recortados pelos Índios, aparelhado com um motor de 5 cavalos. A primeira hora, insuportável. Prisioneiro dessa embarcação, impotente para mudar o curso dos acontecimentos, tomava consciência da decisão irreversível. Maior era minha resignação.

Invadido por uma calma profunda pude perceber, então, a beleza da paisagem. Sobre a cabeça, árvores de mais de cinquenta metros. A floresta. O silêncio. Vivi um sentimento de humildade, de ironia diante do que somos. Vulneráveis, efêmeros. Avançávamos através de uma muralha vegetal. De repente, um afloramento mineral.

Deslumbrado com os veios que jorravam do solo, precipitei-me sobre a montanha. Estava convencido de que milhões de toneladas da mais alta qualidade se estendiam sob meus pés.

 

No começo dos trabalhos no Amapá, dizia ele, com bom humor, que "três estadistas marcaram profundamente" a sua vida: Nasser, Kruchev e Churchill. O primeiro, Gamal Abdel Nasser, porque provocou o fechamento, em 1956, do Canal de Suez, dificultando as exportações da Índia e fazendo o preço do manganês disparar. O segundo, Nikita Kruchev, porque cortou, em plena Guerra Fria, o fornecimento de manganês para os americanos, fazendo o preço explodir no mercado internacional.

- E Churchill? – quiseram saber.

- Bem... este nunca me deu divisas, era só afinidade intelectual.

 

Desenvolvendo intensamente os contatos de negócios com a Bethlehem, precisava fortalecer a contrapartida brasileira no diálogo, nos encontros cada vez mais frequentes. ... a urgência naquele momento, passou a ser a contratação de profissionais para o dia-a-dia.

O primeiro entrevistado – recomendação do dr. Antonio Augusto de Azevedo Sodré, perfeccionista brilhante, de grande experiência internacional – foi o Dr. João Sergio Marinho Nunes, de apenas 23 anos, recém-formado, entusiasmado com o escritório que acabara de abrir junto com dois amigos. Na entrevista ele não chegou a ser ouvido. Doutor Antunes falou sozinho, sem parar, parecia estar fazendo uma conferência. Em completo entusiasmo e por duas horas seguidas, o presidente da Icomi discorreu, convincente, emocionado, sobre a sua crença no Brasil. Nem ao menos chegou a fazer aquelas duas perguntas básicas, indispensáveis: se o candidato era advogado e se falava inglês.

Foi o dr. Sodré, já ocupando cargo de prestígio na empresa, quem tranquilizou o jovem, horas depois: "Conheço bem o dr. Antunes. Se ele não tivesse gostado de você, o encontro não passaria de cinco minutos. Considere-se contratado, isto é, desde que você queira".

 

A escritora Rachel de Queiroz publicou artigo na revista "O Cruzeiro" de 8 de maio de 1965, do qual extraímos o seguinte trecho:

O que é a Icomi? A Icomi é um milagre dentro da região amazônica. Duas pequenas cidades que parecem o sonho de um urbanista lírico. Duzentos quilômetros de estrada de ferro. Um porto onde encostam transatlânticos. Nas cidades há escolas, hospital moderno, supermercado, clube, piscina e cinema. As casas dos operários são tão boas e bonitas que a gente fica pensando com melancolia naqueles arruados, tipo vila de conferência vicentina, que se constroem no Rio para abrigar favelados. Água, esgotos, telefones e o que mais é preciso para garantir o conforto moderno naquelas duas ilhas abertas no meio da mata. Você anda meio quilômetro para lá da Serra do Navio e já está dentro da floresta onde, quinze anos atrás, só tinha onça e algum bugre. E doença braba na água parada dos igapós. E quem paga tudo isso é a mina.

Vejam Brasília. O que horroriza a gente, em Brasília, é pensar que aquele milagre urbanístico, a cidade que brotou de repente dentro do agreste e deserto planalto goiano, é um luxo de povo rico imposto a nossa pobreza. Cada belo palácio de Brasília é um açude a menos, uma estrada a menos, um hospital que não se fez.

Já as duas cidades que nasceram na Serra do Navio e em Santana não custaram nada ao Brasil. Ao contrário, criam riqueza, não só para o local, como para o Território e o País. Se alguém quiser estranhar os excessos de conforto, o custo do hospital, as faturas do supermercado, a beleza californiana das piscinas, fique sabendo que tudo que se gasta ali é dali. Tudo é deles. Tudo sai do manganês. Tudo é tirado debaixo do chão, explorado como deve ser e transformado em progresso e riqueza.

E note-se: por lá não andam americanos. Não há mais nenhum, um só, um único, em todos os campos de trabalho da Icomi. Não que fosse algum mal haver em qualquer lugar americanos, ingleses, judeus, japoneses, himalaios ou qualquer outro alienígena. No Brasil, como em toda terra no Novo Mundo, estrangeiro útil é leal e patrício. Mas acontece que não há. Os pruridos nacionalistas mais ferozes podem se acalmar: aquilo tudo é trabalho da terra. Dos engenheiros aos operários menos qualificados, tudo é brasileiro. Houve americanos na fase da construção da estrada, que foram embora quando o contrato expirou. A construção das cidades já foi feita por arquitetos nativos – e aliás são uma beleza, encantadoras e funcionais. Agora só se vê catarinense, mineiro, paulista, gaúcho, nordestino (cearense às pampas), paranaense, baiano, junto com o povo da terra, numa verdadeira amostragem da população brasileira.

E também podem sossegar o coração os que pensam em dinheiro e royalties – os interesses nacionais estão muito bem defendidos pela lei que permitiu a exploração do manganês na Serra do Navio: 51% do capital é brasileiro, 49% e estrangeiro. Mas nesses 2% está a diferença importante, pois que significam o controle da empresa.

Agora a Icomi se estende no Amapá em novas iniciativas: fazendas-modelo, pequenas fábricas e as promissoras plantações de dendê, em que o povo do Amapá põe grande esperança; progresso cria progresso, cria riqueza. O que a Icomi construiu e constrói é motivo de orgulho.

 

Em todas as suas associações com empresas estrangeiras, doutor Antunes jamais abriu mão do controle brasileiro. E, no entanto, era taxado de entreguista por reconhecidos apedeutas aboletados no Congresso Nacional.

Sempre criticado pela esquerda por seu relacionamento com o capital externo, são dele estas palavras: "Todo capital tem origem social. E sendo fruto da acumulação de recursos da própria comunidade, a ela deve voltar". E ele adotou, na pratica cotidiana, os valores e crenças de sua filosofia empresarial.

Os patriotas de fancaria e os políticos profissionais nunca estiveram culturalmente preparados para compreender o alcance, sobretudo social, dos empreendimentos do doutor Antunes – ele, sim, um brasileiro nacionalista.

"Testa de ferro do capital internacional" – lia-se repetidas vezes nos jornais dos anos sessenta, a xenofobia exacerbada envolvendo alguns editorialistas do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A melhor maneira de se defender das críticas, para o doutor Antunes, era mostrando suas realizações. Levando ao Amapá gente importante, formadores de opinião, organizando eventos culturais, patrocinando a viagem de caravanas de estudantes de todo o país.

O episódio Carlos Lacerda demonstra bem o acerto dessa sua postura. Crítico ferrenho e demolidor dos projetos da Icomi, Lacerda concordou em visitar o Amapá e, na volta, fez autocrítica, registrando um “mea culpa” honesto, brilhante e corajoso no jornal “Tribuna da Imprensa”, de sua propriedade.



Citações da imprensa:   Citação no JB Ecológico:
Hildegard Angel - Jornal do Brasil, 12/05/2006 Ecologia - pág. 58
Hildegard Angel - Jornal do Brasil, 02/11/2006 Ecologia - pág. 59
O Globo, 03/10/2006 Ecologia - pág. 60
Elio Gaspari - Folha de São Paulo, 10/12/2006 Ecologia - pág. 61
Jornal Meio Norte - Piauí - 23/12/2006  
Jornal do Brasil - Anna Ramalho - 23/11/2006  
Jornal do Commercio - Aziz Ahmed - 15/01/2007  
O Globo - Negócio & Cia.- 05/01/2007