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14 de março de 1972 deve ter sido um dia insípido no Brasil — pelo menos nada do que aconteceu nessa data mereceu ate hoje registro no Google. Mas um fato surpreendente estava acontecendo na Escola Superior de Guerra. O médico psiquiatra Otto Julio Marinho apresentou o relatório sobre o trabalho - "A época contemporânea e a comunicação social" — produzido por seu grupo de estudos, também composto por Ferdinando de Carvalho (general do Exército), Carlos Sanchez de Queiroz (professor de Medicina) e José Camarinha Nascimento (procurador). Lá no meio do trabalho, numa época em que a censura à imprensa estava no apogeu da arbitrariedade, encontrava-se este surpreendente trecho: |
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"Apesar da opinião de certos autores que afirmaram ser o processo de comunicação social independente dos desejos humanos, verificamos que na realidade os meios de comunicação mais influenciam os povos do que são por eles influenciados. A sociedade democrática depende da liberdade de informação, do livre curso de idéias a opiniões, pois o 'conformismo significa morte por auto-estrangulamento'. A luta pela liberdade de imprensa sempre foi irmanada ao aperfeiçoamento realístico das democracias, contudo nunca desvinculada das necessidades de controlar seus limites, na procura de liberdade com responsabilidade." |
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"Todos concordam também que, na busca da verdade, o homem precisa de todas as informações, acesso a todas as idéias a não apenas as que lhe desejarem fornecer. A melhor maneira de lutar contra o falso, de combater o erro, é conhecer para refutar. Idéias contra idéias. É o apogeu da liberdade". | |||
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A maior parte do texto a devotada à necessidade de também se dar forte ênfase à segurança "em tempo de guerra ou quando as instituições estiverem em risco". O general Ferdinando de Carvalho, que, no livro "Os sete matizes do vermelho", demonstrou a mais absoluta incompreensão das idéias socialistas (o que também pude confirmar ao ser interrogado por ele em Inquérito Policial Militar) certamente usou o obvio poder de persuasão militar para convencer os colegas civis da ESG da importância de serem devidamente contidos os arroubos pela liberdade. | |||
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Suspeito (não consegui obter confirmação de ninguém sobre isto) que a epidemia de poliomielite, responsável pela morte de milhares de crianças em 1972 no Rio a em São Paulo, provavelmente influenciou os dois médicos do grupo de estudos a tomar a posição corajosa do relatório. A severa censura do Governo Médici sobre qualquer noticiário sobre a epidemia durou semanas, sendo suspensa apenas quando começou a ser noticiada por jornais no exterior. | |||
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Tão surpreendente e corajosa como o próprio relatório foi a reação da imprensa, dois meses depois, assim que o documento vazou. O Jornal do Brasil abriu as baterias no dia 9 de junho, com o editorial "Debate Oportuno", usando como referência principal o mesmo trecho que escolhi acima. | |||
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Dois dias depois, domingo, 11, o Estadão publicou matéria de quatro colunas com bom resumo do relatório e também curto editorial, com este primeiro parágrafo: | |||
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"Tentar esconder os fatos para que a imagem de uma administração não seja atingida, ocultar falhas ou imprevidências, é fazer perder a confiança do povo nos meios de comunicação, na voz do governo, a propagar o fato pelo boato, comentário velado, escândalo e manobras sub-reptícias. A crítica responsável deve existir, única maneira de o governo não ter um conceito irrealista do momento" – esse é um dos trechos da conferência sobre "Comunicação Social", apresentada por membros do corpo permanente da Escola Superior de Guerra, durante a fase doutrinária dos cursos." |
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O Globo, também no dia 11, fez longa matéria e com título forte – "Censura prévia pode levar à tirania" – e um lide bem esperto: "Uma pré-censura exigiria censores infalíveis, incorruptíveis, e assim mesmo os cidadãos teriam a sensação de que o Governo neles não confiava." | |||
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A Folha lamentavelmente silenciou. Veja, datada de 14/06, mas que chegara às bancas no sábado, dia 10, deu um bom título à matéria – "Censura inútil" – mas a matéria nao soube explorar tão corajosamente o fato como JB, Estadão e Globo. | |||
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E, finalmente, o Correio da Manhã, antes o principal órgão de imprensa na resistência democrática após o golpe de 1964, já não estava sob o comando de Niomar Muniz Sodré. Fora praticamente destruído pelas pressões dos militares e só publicou noticiário sobre o relatório duas semanas após os outros, para dizer o mínimo, vergonhoso. | |||
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Todo este material está publicado no livro que o leitor tem em suas mãos. | |||
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(*) Milton Coelho da Graça, 78, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e escreve no site Comunique-se. | |||